“O começo de todas as ciências é o espanto de as coisas serem o que são.”
(Aristóteles)

A decisão do voto nas eleições presidenciais brasileiras. Yan de Souza Carreirão. Florianopólis/Rio de Janeiro. Editoras UFSC/FGV. 2002. p.23-61.

                                                                                Resenhado por; Suzana Alves

 

A decisão do voto nas eleições presidenciais brasileiras (2002), é um livro estruturado em duas partes com o total de seis capítulos, sendo resenhados aqui apenas os dois primeiros, livro escrito por Yan de Souza Carreirão, analisa as formas como os eleitores votam para presidente, tendo como  contexto as eleições presidenciais brasileiras o autor propõe que essas formas variam muito de acordo com escolaridade do eleitor.

 

O autor sustenta o argumento de que os principais fatores considerados pelos eleitores em sua decisão na hora do voto são certas imagens políticas que eles formam dos candidatos e dos partidos, a avaliação de desempenho que fazem do governo em exercício e a avaliação que fazem de certos atributos pessoais.

Nos capítulos aqui resenhados serão abordadas e discutidas as principais teses explicativas do voto nas eleições presidenciais brasileiras existentes na literatura recente é também feita uma revisão dos debates existentes na literatura internacional, em torno dos principais fatores de influencia sobre a decisão eleitoral.

A primeira parte dedica-se a uma revisão de literatura sobre o comportamento eleitoral no Brasil privilegiando as teses que envolvem o comportamento do eleitor nas eleições presidenciais no sistema multipartidário. Aqui Yan de Souza Carreirão faz um ótimo apanhado das teses sobre o voto no Brasil (referências dessas teses). O voto como “defensor dos interesses do povo”, é como o autor denomina a tese a qual advoga que a maioria do eleitorado vota no candidato que tem a imagem de defensor dos interesses das maiorias. Faz-se analise ainda do conceito de sofisticação política, que pode ser definida como, aqueles eleitores que tem maior consciência tanto política como ideológica, sobre este conceito conclui que para os eleitores de baixa sofisticação política, não há uma relação de causalidade no sentido de que a concordância do eleitor com as posições políticas de seu candidato levariam ao voto.

Em algumas questões no decorrer do texto, sente-se a falta de uma maior participação conclusiva por parte do autor, talvez seja pelo fato desses dois primeiros capítulos serem revisões de literatura, limitando um pouco o autor no que concerne a uma maior explicação em alguns momentos do texto.

No decorrer desta primeira parte são abordadas questões de identificação ideológica, que no conceito de Singer (referencia) usado pelo autor, é a adesão a uma posição no contínuo esquerdo-direita ou liberal conservador que, mesmo sendo difusa, isto é, cognitivamente desestruturada, sinaliza uma orientação política do eleitor. Em sequencia ele discute como age o novo eleitor não racional, que seria aquele eleitor que escolhe o candidato basicamente a partir das imagens deste. E ainda, o voto por avaliação de desempenho.

O autor é coerente, seguindo uma linha onde as teses são apresentadas segundo apenas uma ordem cronológica, sem preocupação de enquadrá-las.

Na segunda parte a última a ser tratado aqui, faz-se analise dos fatores que influenciam a decisão do voto tendo por base uma revisão de literatura internacional. Nesta parte, aparecem questões do tipo ideologia, issues e imagem. O voto ideológico implicaria que o eleitor, forme alguma opinião a respeito de vários temas (issues) políticos e que estas fossem opiniões razoavelmente coerentes entre si.

O autor conclui que na literatura internacional, embora ainda haja divergências, o diagnóstico predominante, efetivamente não aponta para um elevado grau de informação e “estruturação ideológica” do “eleitor médio”. Deve-se ressalta que nesta parte do texto são tratadas ainda questões como a informação, racionalidade e decisão eleitoral. A constatação da baixa informação e estruturação ideológica é contrastante quando diz respeito a uma imagem de um cidadão racional, politicamente interessado e informado que é pressuposto da teoria democrática clássica.

Muito interessante e instigante é quando o autor chega ao “paradoxo da política de massa”, chamando assim por Nenman (1986), que seria apesar de toda a apatia e os baixos níveis de informação do eleitorado, ainda se tenha um bom funcionamento do sistema democrático. A avaliação de desempenho e voto pode se desenvolver de várias formas como, por exemplo, avaliação de desempenho do governo, onde o eleitor faz sua avaliação como ruim ou boa. A partir daí sai sua decisão, surgindo nesta questão o voto retrospectivo e ainda o voto econômico que é feito pela avaliação, que os eleitores têm do estado da economia e como foi o desempenho econômico durante tal governo. Carreirão conclui que de acordo com a literatura internacional, não é irracional utilizar tais tipos de qualificações pessoais (que são no caso as analises feitas de acordo com as imagens dos candidatos e não só partidos) para avaliação dos candidatos. De outro lado diz o autor, se o eleitor sabe que o candidato é incompetente ou desonesto, não é racional para ele gastar tempo para conhecer todas as propostas desse candidato e avaliá-las. No entanto é quase consenso no que diz respeito ao fato de que as escolhas feitas pelos eleitores têm mais um cunho personalista que partidário.

Desde o título do livro, presume-se que a questão do voto seja um pouco mais complexa, pois, são tratadas as eleições presidenciais que tem muito peso e é onde o eleitor faz um esforço maior de racionalidade ou pelo menos deveria fazer.

Essas observações em nada diminuem o vigor do livro, o trabalho árduo em fazer uma revisão de literatura que fosse coerente e condizente com o tema abordado, e a absoluta necessidade de compreender a política e o comportamento político brasileiro.