“O começo de todas as ciências é o espanto de as coisas serem o que são.”
(Aristóteles)

 Envolvimento e alienação. ELIAS, N.  Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. p. 11-162.

                                                                              Resenhado por: Denisson Silva

Norbert Elias foi um sociólogo alemão, que desenvolveu seus trabalhos levando em consideração os processos sociais como unidade de analise, sendo esses processos de longa ou longíssima duração, os trabalhos desenvolvidos por Elias tem um viés na sociologia critica.

 

 

Em sua obra Envolvimento e Alienação, edição traduzida e lançada para o português no ano de 1998, a obra foi uma tradução de Álvaro Sá. Uma obra de importância impar para a sociologia, no sentido de que as discussões presentes são principalmente no sentido epistemológico muito relevantes  para compreensão das sociedades humanas e das relações sociais. Para tanto o autor traz a idéia de envolvimento e alienação,

Na obra que é dividida em três partes Elias não foge da concepção de modelar suas pesquisas cientificas, pois o autor, desenvolve um modelo epistemológico importante para vigilância constante do cientista social. Das três partes que formam o livro iremos resenhar apenas a primeira parte onde o autor vai tratar mais especificamente das questões de envolvimento e alienação.

O autor começa seu texto falando sobre o conhecimento das sociedades humanas e é basicamente sobre isso que versa todo o texto, para Elias o conhecimento é passado de geração em geração sendo desta forma acumulativo. Nesse sentido Elias faz comparações entre os conhecimentos produzidos a respeito da natureza, ou melhor, da natureza não-humana, essas comparações são na direção de seu avanço no processo de congruência teórica e pratica.

Elias faz a comparação entre as ciências naturais e sociais, e diz que as ciências naturais já chegaram a um nível de conhecimento côngruo o com a realidade enquanto que as ciências sociais ainda não conseguiram esse mesmo feito, ou seja, as ciências sociais ao contrário das ciências naturais ainda não conseguem ajudar a sociedade a resolver problemas. Segundo Elias hoje não há nada que se possa fazer a cerca dos desastres sociais, e que as ciências sociais ainda não dariam conta da tarefa de responder que a violência e os conflitos não se resolveriam com mais violência ou mais conflito.

Para Elias para que os cientistas sociais pudessem desenhar da melhor forma possível seria necessário que estes conseguissem se distanciar do seu objeto, o que significa que ele teria que se alienar para só então, fazer um trabalho sem “fantasia emocional”. Sendo assim o que há é uma necessidade de alienação. A seguir veremos mais detalhadamente como Elias desenvolve os conceitos de envolvimento e alienação

O primeiro ponto a ser destacado é o significado que o autor dá aos termos Envolvimento e Alienação, os conceitos que dão o nome ao livro. Para Elias estes dois conceitos estão diretamente relacionados a como o pesquisador se põe em campo e qual a sua perspectiva analítica. No primeiro, envolvimento, o pesquisador esta envolvido com o contexto e não consegue fazer analises que não seja de curto prazo, ou seja, o pesquisador está demasiadamente envolvido com o próprio objeto o que faz com ele não consiga fazer uma sociologia processual, desta forma, não consegue sair da sociologia do presente e assim não consegue extrapolar inventivamente, porque a criatividade cientifica está presa as percepções e desejos do presente. Nesse sentido a percepção de tempo que o cientista tem é a editada pelos fatos presentes, ou melhor, pelos fatos atuais. O que acaba por limitar a capacidade de desenvolver novas pesquisas e descobertas cientificas. De modo resumido o envolvimento seria o modo de aquisição de conhecimento envolto em emoções.

Quanto ao termo alienação, a primeira vista causa impacto no seu uso, ou melhor, causa estranhamento, pois esse termo foi e é muito utilizado pela tradição do pensamento social marxista.  Mas aqui esse termo não nada haver com a tradição marxista, pois, o termo aqui está relacionado a capacidade de que os cientistas – especial os cientistas sociais – tem de se distanciar do objeto – onde o próprio está inserido, ou seja, a capacidade que o cientista tem de enxergar os processo sociais a longo prazo, isto é, a capacidade de olhar para o passado e o presente sem perder um ou outro de vista. Assim, um ato alienado nesta concepção é um ato distanciado, proporcionando que a sociologia deixe de ser uma ciência do mero presente, ou seja, deixe de ser uma ciência do imediatismo dos desejos e percepções dos cientistas.Nesse sentido, alienação seria o distanciamento do envolvimento estando desta forma mais próximo da realidade. E nas palavras do próprio Elias quanto aos conceitos de envolvimento e alienação:

“Pode-se mencionar formas mais envolvidas de conhecimento e de ação, mas entende-se que aqueles a quem essas declarações se referem, sejam sábios, atores ou outros com qualquer capacitação, são meros seres humanos, isto é, pessoas no tempo e no espaço. Se se abordam níveis sociais de envolvimento e alienação, referem-se a características e à situação dos seres humanos que formam a sociedade considerada. Referem-se a seres humanos, incluindo seus movimentos, seus gestos e suas ações, não menos do que seus pensamentos, seus sentimentos, seus impulsos e o controle deles. Refere-se, em resumo, à auto-regulação, incluindo aquilo que é regulado. Basicamente os dois conceitos fazem referência aos diferentes modos segundo os quais os seres humanos se regulam, no que podem, aliás, ser mais alienado ou mais envolvido.” (ELIAS.1998, p. 48.)

 

Então, nesta concepção de Elias a vigilância metodológica deve se concentrar em o quanto o cientista consegue se distanciar dos fenômenos que o envolve no mundo para que ele tenha a capacidade de fazer analise de longo prazo e conseqüentemente sair do imediatismo das percepções e desejos do pesquisador e da sociedade e indivíduos que o rodeiam. E quando o cientista busca esse ato alienado ele libera toda capacidade de invenção, pois, nessa concepção a invenção cientifica só é possível quando o pesquisador não está envolvido com mundo imediato e conseqüentemente está “livre” do imediatismo.